segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A Ventania

Era aquela, uma agradável tarde de verão, quando resolvemos sair para dar uma caminhada.
Em pouco tempo, o tempo começou a virar, e o que era brisa de verão, tranformou-se no início de uma tempestade, com direito a pingos grossos e a uma forte ventania que começou a jogar abaixo tudo o que encontrava pela frente, inclusive árvores.
Por entre uma dessas, corria eu, tentando fugir dos pingos dágua, quando, aflita, senti que algo havia “pulado” em mim.
Ouvi gritos de pavor...
Assustada, vi que as amigas apontavam para mim.
Paralisada de terror, percebi que o “algo” em minhas costas, era, nada mais, nada menos do que uma barata!
Uma barata? Uma maldita barata!!!          
-Uaaaiii!!!Uma barata!!!tira!tira!!!, Socooorro!!!!
Enlouqueci!
O bicho maligno, então, começou a correr em zigue-zague, e em círculos e terminou por estacionar suas patinhas em meu pescoço, me fazendo passar por drogada!
- Ahhhhhhh!!!!!
Minhas pernas ficaram moles! E acreditei ser o fim!
Sem ajuda das amigas, (que já iam longe...) entrei em pânico e continuei a gritar e a me debater, desvairada!.
Tentando tirar a barata dos ombros, piorei a situação e fiz com que ela entrasse ainda mais, nos meus fartos cachinhos e quase arranquei os cabelos!!
Pessoas da rua paravam e olhavam a cena ridícula, hipnotizadas!
A estas alturas, eu já pulava alto, rodopiava no ar, puxava o cabelo, me desdobrava em partes iguais, me descabelando, surtada!
Transeuntes começaram a correr do local, entendendo que, ou eu estava tendo uma crise epilética ou estava possuída por alguma entidade religiosa, e me deixaram todos, cada vez mais sozinha, transformando a cena patética, em uma experiência exorcista!
Policiais que passavam pelo local correram em minha direção, imaginando ter sido uma tentativa de homicídio!
Sem poder suportar mais, puxei o guarda, e histérica, comecei a sacudi-lo! Avisei que não agüentaria mais e que ia enfartar! Ele, porém, para minha surpresa, tinha mais medo da maldita do que eu e deu no pé, me deixando em plena crise de pânico.
Eu não mereço...
Seu companheiro, vendo a situação, desatou a rir e resolveu negociar comigo a expulsão da barata.
O guarda dizia ser um homem de Deus e ficou ao meu lado recitando trechos da Bíblia, me fazendo jurar que iria me ajoelhar numa dessas igrejas macabras e arrancar o demônio “encostado” em mim.
Vencida! concordei.
Quando o guarda tirou a maldita barata, riu da minha cara e disse que tinha sido brincadeira...
Enjuriada, voltei pra casa jurando vingança contra o guarda espírita e as amigas da onça.

Caçada ao Santo Milagreiro

Aquele não era um dia comum na cidadezinha em que morava, várias garotas encontravam-se reunidas desde as primeiras horas da manhã, em alegre conversa, armadas de velas, meias, cuecas, calcinhas, café, facas, estiletes e outras pequenas parafernálias e, junto com tudo isso, toda sorte de simpatias e bruxarias, cheias de esperança naquele dia tão especial.
Era dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro....
Envolvidas na busca do homem ideal, do príncipe encantado, do cavalheiro que galopava no cavalo branco e talvez, um pouco mais realisticamente, do sapo desencantado, mas com boas pernas e braços, sonhávamos todas, com o amado do futuro.
Por óbvio, sequer dávamos bola àqueles que não eram, nem de longe, o tal príncipe ou esparrela assim, e que estavam ao nosso lado, sofrendo conosco, o dia inteiro, como escravos no meio de todos aqueles objetos de tortura, ou seja; os namorados.
Em meio a este burburinho tipicamente feminino, (porque homem que é homem, não pede por namoradas, mas sim, pra se livrar delas!), me peguei ouvindo uma estorinha que me pareceu interessante - para dizer o mínimo – sobre um negócio com o Santo, que se daria da seguinte maneira:
Teríamos que enfiar a faca (com muita força) numa bananeira à meia-noite, rezar alguns padre-nossos e, também, algumas ave marias, rodopiar descabeladas de saia comprida, umas cinco vezes ao redor da maldita árvore e depois, ler uma simpatia que envolvia o tal pedido para o Santo em questão, com uma lista de promessas a serem cumpridas daquela data, até o dia fatídico, qual seja? – o casamento; e então, ficar de joelhos (promessa que é promessa, só serve de joelhos), amarrar o pobre do Santo de cabeça para baixo, no pé da árvore e tomar um looongo gole de uma bebidinha – cachaça - e passar um perfume vagabundo qualquer do tipo: “agarra homem”, “faz querer quem não me quer”, “carrapatinho”, “chama” e principalmente, gritar bem alto um “pelo amor de Deus, Santo Antônio, me arruma um homem!”, e então, cumpridas todas essas formalidades legais e eclesiásticas, no dia seguinte, veríamos, finalmente, no tronco da árvore, a primeira letra do nome do futuro “marido”, o que facilitaria - e muito - os anos vindouros, pois não levaríamos mais fora do que o necessário, já que, à partir de então, só namoraríamos o cara que tivesse a tal inicial, eliminando todas as outras possibilidades porque não seria a escolha do santo.
Concluí, então, que a estória era verdadeira, com a sabedoria dos meus quinze anos, e resolvi por em prática a fórmula milagrosa...
Ansiosa por determinar o futuro, juntei-me a uma amiga (também muito carente) e munidas de todos os sacro-objetos, aguardamos a chegada da meia noite.
Torno claro que não me dei conta que ficar acordada até a meia noite com uma faca na mão, seria indício de um problema, primeiro porque sempre manejei bem o dito objeto, depois porque era tudo realmente inocente, não tinha a intenção de esquartejar ninguém a não ser a pobre bananeira, que, pensava eu, estava ali só para me ajudar porque afinal era aquele o seu destino!
Meu pai, desconfiado, me olhava com um ar estranho... mas como ele sempre me olhava mesmo, não dei a menor bola e fui pro quarto tirar um cochilo junto com a amiga escolhida para a empreitada.
Decididas a ir em frente, colocamos o relógio para despertar às onze da noite e assim que o dito reclamou, acordamos cheias de atitude.
O local escolhido para a feitura da transação celestial era um terreno baldio, com muitos metros de mata amazônica, ermo, sem luz próxima, nos fundos de uma casa abandonada e com mil histórias rolando por lá, desde a um possível assassinato até aparições fantasmagóricas.
Sem pensar muito no problema (às três horas da tarde) decidimos que não tínhamos medo de espíritos e fantasmas e permanecemos irredutíveis.
Até àquela hora....
Caminhamos até a metade do caminho a primeira metade com passos decididos a outra....com passos indecisos, e com a confiança já um pouco abalada, mas, curiosas para saber se o Divino nos reservara algo melhor do que os patetas que nos namoravam, reunimos o pouco de coragem que nos restava, e fomos à luta.
Ao chegar no local do sacrifício, tivemos que escalar um muro de alguns metros da altura – não sei quanto, mas era alto - o que já nos deixou consideravelmente abaladas – nunca havíamos escalado nada!
Paramos para resolver o problema, pensamos e decidimos, que eu pularia primeiro e que a outra escalaria o tal muro através de umas fendas, já que era mais magra; assim, superada esta fase, entramos no local soturno.
Do outro lado, bem no meio do matagal, encontrava-se a bananeira que resolveria nossos problemas sentimentais, com uma lúgubre luz da lua por detrás, o que tornava o local ainda mais macabro... mas, dispostas a superar qualquer obstáculo para saber quem seria o escolhido, enfrentamos, de mãos dadas o pavor e corremos em sua direção dispostas.
Começamos o ritual, estraçalhei o tronco de bananeira, soltei os cabelos, pulei ao redor da árvore, me ajoelhei, rezei, pedi bem alto um homem e tendo dado por encerrada a minha sessão, passei o facão pra amiga.
Então... bem no meio do assassinato da bananeira, ouvimos um murmúrio:
- Uhhhhhhhh!!!!!!
Minhas pernas amoleceram....
- Cruzes! Que é isso?, disse eu,
- Não sei, respondeu a amiga também trêmula e engasgando
- Uhhhhhhhhhhh!!!!!!! - mais forte.
- Óh céus! Quem está aí? Perguntei, já pulando uns dois passos pra trás.
- Pera lá, não me larga aqui!!
- Ih! minha filha, cada um por si e Deus por todos, Adeus! Partindo em retirada e largando todos os objetos pra trás.
Nunca fui uma pessoa valente e não sei porque estava sendo cobrado de mim, uma atitude digna de um leão.
Solidadiredade entre mulheres é o bicho...
Saí correndo como um cachorro e deixei a pobre coitada, colada na bananeira, com a faca emperrada, em verdadeira crise de pânico
Quando cheguei no muro, e iniciei a escalada, ouvi outro grito, ainda mais alto:
- UHHHHHHHH!!!!!!
Perdi as forças....
Naquele momento, sem saber direito, como, minha amiga que estava a muitos metros de distância, passou por mim e - com um pulo! – um único pulo! foi parar do outro lado do muro, deixando impressionado qualquer atleta olímpico e me deixando completamente sozinha no matagal.
Minha perna, virou um “concreto” e não consegui dar mais nenhum passo sequer! Desesperada começei a gritar:
- Socorro!!!Socorro! dizia eu batendo no muro quase derrubando-o e esfolando os pés tentando pulá-lo.
- Socorro!!!!
Já do outro lado a amiga gritava: Quer ajuda? Vou chamar o lobisomem, sua cretina! Cuidado com as cobras!!!Há, há, há!!! Bem feito!!!
Castigo vem a cavalo.....
De repente, olhei pra trás e vi uma luz vindo em minha direção.....não acreditei!!!......que é isso!!! Que é isso???!!!
Todos os meus fios de cabelo se arrepiaram...o pêlo Rei também...
Senhor! Senhor! já gritava chorando....
Ô Santo Antônio, qual é? Prometo que se sair daqui nunca mais te peço um marido, juro!!
Então, com os olhos semi abertos, vi que a luz era de uma lanterna e que meu pai a segurava, aos risos, junto com meu namorado quase me matando de susto!
Assim, os dois me assistiram pagar o maior mico....E se divertiram um bocado.
Fala sério Santo Antônio....
Que que aconteceu:? Não rezei direito?

O Avião - O retorno - 2ª parte

Já haviam se passado quase dois dias quando tive que retornar ao Rio - convém informar que havia andado relativamente “sedada” naqueles dias .
Sem graça e sem filho, sem companhia e novamente alcoolizada, mais uma vez vi meu “passe” a venda para as terras celestiais. 
Com uma super imaginação e na certeza de que, DESTA VEZ, eu iria “partir”, me despedi de Porto Velho e entrei no Avião. 
A primeira parte da viagem foi surpreendente boa, claro que tive os chiliques de sempre, mas, com o recente vexame ainda límpido na memória, controlei-me melhor e, desta vez, fiz amizade com o piloto, em vez de tentar agarrá-lo. ( foi menos humilhante!).
Desci no Aeroporto de São Paulo e novamente fui parar no balcão...(horinha mais sem graça...)
Naquele momento a atendente pegou meu bilhete e falou:
- Está lotado, volte outro dia;
- Ótimo... Muito obrigada, Adeus! (escapei!).
Mas, tudo foi por água abaixo quando uma outra atendente (miserável) gritou informando que alguém havia desistido.
- Srª, Srª !!! A passageira desistiu, tá aqui o seu bilhete!! Exclamou toda alegre.
Senti um aperto no coração....
- Mas e aquela senhora? (apontei para uma elegante e rosada velhinha) ela não precisa ir na minha frente? sabe como é... primeiro os mais velhos, não é?
Não colou.
- De jeito nenhum! Esta senhora está aguardando outro vôo, portanto, vamos fazer seu check-in! Disse a “perua” empolgada.
Me deixei arrastar para o balcão... sem forças.
Instantes depois a atendente me deu um bilhete com o cartão de embarque que marcava o número 13!
- Não pode ser sério!, 13?!
Alguém lá em cima tava brincando com a minha cara...
Peguei aquela porcaria, sem sangue no rosto e vi que algo pior estava acontecendo...
Um homem, com idade variada chegou esbaforido e pediu uma vaga no mesmo vôo.
O problema foi a resposta da mulher...:
- Lamento Senhor, acabei de dar o último cartão a esta senhora! .... realmente lamento! Ela é a última passageira. A Última!
Tudo começou a girar devagar.... deu uma dormência nos dedos.....
Quase pude ver, a TV Globo entrevistando o tal homem, e este entre aliviado e embaraçado, prestando informações sobre como tinha sido o seu último contato com os passageiros, balconistas e atendentes.... e como ele dera a sorte e como uma pobre mulher ( eu ) tinha dado azar....tinha pegado o último bilhete....Nº 13...Sina do número...essas coisas acontecem...
- Que pena! Era a hora dela, dizia...
Parei ali mesmo, - Não mesmo, não vou, nem pensar!!!!Tenho que dar um jeito...preciso dar um jeito!
Mas nada consegui...
Com este tipo de pensamento fui procurar consolo na garrafa mais próxima.
Estranhamente ninguém, ninguém mesmo, falava português e havia uma orquestra sinfônica, sabe Deus de que parte do mundo, embarcando comigo, ( obviamente lembrei-me de vários acidentes com equipes, turmas, colégios, jogadores) e aí pensei: ERA AGORA!!!!
Dei três passos pra trás e pude finalmente ouvir alguém falando baixinho, em português. ... - Tá lotado, vamos na cabine com o piloto.... A surdez me pareceu uma benção... Dá pra acreditar!!! Tomei mais alguns goles da garrafinha portátil e fiquei ébria rapidinho!
Entrei e, como por milagre, o porre passou!
Com real falta de ar, claustrofobia e outras neuras, já dentro do bendito avião, toda encolhida, fui colocada entre dois jovens da filarmônica (se não me falha a memória eles até eram bonitinhos), o que me deixou pior, já que eu tinha a certeza de que, até o fim da viagem, eles iriam se mandar me xingando.
Que língua era aquela?
Os dois olharam pra mim agradavelmente surpresos e tentaram aquela tática de olhares, gentilezas e beicinhos, infelizmente, (embora consideravelmente encalhada) naquele dia, eu não “tava pro negócio”, e deixei pra lá....comecei a rezar, peguei um terço ( aí eu já parecia avó dos caras)...eles perceberam e me olharam de uma forma estranha.....mais reza..... então começaram a rir - senti muita dificuldade de continuar naquela cadeira - mas fui ficando...
O avião levantou vôo, e aí todo o meu lado histérico apareceu.
Aos gritos e aos berros começou minha “tortura voadora” e naquele instante, consegui deixar os dois rapazes mais apavorados do que eu. O pavor é contagiante.
Quando finalmente olhei pro lado percebi que com meus gestos largos - e pouco femininos - os rapazes já, também, gesticulavam pra comissária, naquela língua esquisita, dizendo – pelo que pude perceber - que não queriam ficar mais ali e que iam processar a companhia por terem me deixado subir sem a camisa de força (tradução literal dos gestos)...não foi nada legal da parte deles....
A comissária chegou e falou:
- A senhora está assustando os passageiros!
- Eu é que estou assustada! Que merda de vôo é esse! Cadê minha bebida! Se não me trouxer, a coisa vai ficar pior! Por favor! Por favor! Whisky preciso de uma dose!!!!
- Calma senhora! Já vem! Já vem!
Finalmente chegou meu calmante. Ôh sede!
Lembrei-me dos bonitinhos da filarmônica, lembrei do meu estado civil, e já devidamente anestesiada, olhei pros lados...mas, eles já iam longe!
Ao final, eles mostravam um dedo, num gesto pra lá de popular entre os humanos deste planeta então, entendi o recado......estraguei tudo mais uma vez, só que desta vez... Fiquei com a janela!

O Avião - A ida (1ª Parte)

Era um daqueles dias em que se acorda convencido de que foi chamado,...Por Ele!
Você, ninguém mais! - ouviu enquanto dormia! – você seria o próximo da lista...
Que merda!
O drama tinha começado na semana anterior; quando soube que ia viajar, passou mal a semana toda, freqüentou banheiros públicos e andou vagarosamente pelas ruas, pensando no fim... (como sempre o fazia quando sabia que ia viajar);
– Você vai pra Porto Velho, disseram, naquele malfadado dia, - acabou ali - semana que vem.....
Venho aqui explicar que estes sentimentos se apossaram de mim quando soube que deveria viajar, e que o meio de transporte seria o “segurérrimo” avião!
O amigos - já sabendo do meu pavor - diziam solidários:
- Não se preocupe, eu procuro o teu nome na lista de sobreviventes!
- Não tô preparada....
Vale dizer que o avião - contra todas as pesquisas - na minha cabeça, não é nem de longe o meio de transporte mais seguro do mundo, nesta categoria eu voto no pé!
Certamente não se leva a sério as minhas verdades...mas eu não sei de onde tiraram isso! Estatística uma ova! Sou Taurina!
Momentaneamente conformada com o destino cruel, lentamente arrumei as roupas (pretas) restantes e aguardei – nada ansiosa - o fim do dia (que passou lentamente) e quando caiu a noite parti pro aeroporto.
Chegando nos arredores, ao ouvir o ronco dos motores tão de perto, outra vez, aquele sentimento macabro - que os neuróticos e histéricos sabem bem - começou a tomar conta de mim: suor, tremedeira, boca seca, dores no corpo, falta de ar, falta de ar...ar...Ai meu Deus...
Tentei , a pulso, me controlar!
Ainda sufocada, fui até o balcão - com pernas pesadas - e tendo mais um de meus chiliques.
Então fui andando e falando comigo mesmo....é chilique, se controla; é chilique, se controla....se controla....
Momentos depois, nada controlada cheguei ao meu destino.
Com algumas pílulas na mão..e disposta a comprar qualquer briga pra sair daquela situação, me aproximei do balcão, com o velho aperto no coração, e reuni o que me restava de coragem para perguntar se estava tudo certo.
A atendente me recebeu bem, mas me deu aquele olhar (quem bebe em vôo, sabe a que tipo de olhar me refiro) que não deixa dúvidas quanto a que tipo de boa viagem ela está te desejando, assim, cada palavra que ela dizia eu interpretava da maneira que, tenho certeza, é a correta :
- A srª quer que cadeira?(a que vai virar carbono ou a que vai voar?)
Ao que respondi:
- A última! (em caso de morte ou fogo, eu levo todo mundo comigo)
A senhora pode aguardar ali na sala de embarque...(trouxa, vai rezando...)
- Tudo bem, obrigada. (desgraçada, vou puxar teu pé se eu morrer!)
Passada toda essa série de formalidades encaminhei-me àquela sala claustrofóbica cheia de gente (inclusive as que iriam morrer naquele dia....) e juntei-me a todas elas na sala de embarque.
Momentos depois, o chamado....
- Passageiros do vôo....embarque!
- É agora! Não vou, não vou!
Minha respiração começou a falhar de novo, o coração começou a bater mais forte – tinha chegado a minha hora...e, como boi no abatedouro, encaminhei-me até a porta do avião e entrei!
Naquele momento a comissária me reconheceu... ( foi constrangedor...) e disse:
- Oi, eu lembro de você!!! De novo??? Você é aquela que costuma dar escândalos, não é? Eu me lembro do outro vôo... vamos lá de novo?
Ninguém merece,...abaixei os olhos, envergonhada;
-A senhorita deve estar me confundindo com alguém - acrescentei blasé ;
Que nada “filhinha”, da última vez que você voou, vomitou no meu colo! Tava de porre! Me lembro bem, até tentou agarrar o comissário! (ó céus!) Já superou o medo? Tá melhor? Que figura....e saiu rindo.
Mulherzinha desagradável...pensei e acrescentei:
-Olha, vamos fazer o seguinte, você me traz uma dose de whisky, e eu te deixo em paz, ok? (negociei).
- Tudo bem, só um minutinho.
Fiquei aguardando o tal whisky quando, de repente, todo o meu auto-controle, (obtido a duras penas com a bebida e os remedinhos na sala de espera) foi embora no momento em que aquela merda subiu.
O desespero recomeçou lentamente....calma....calma.....tudo bem.....estava conseguindo.....calma....calma.....ave Maria, cheia de graça (comecei a ficar roxa...) Ave Maria, cheia de graça...(como é que é mesmo?) Meu Deus!!!! Esqueci! Ave Maria...Ave Maria....
Naquele momento o avião começou a chacoalhar e chacoalhar, começou a tremer e eu também!
- Que merda é essa?
A engraçadinha se virou pra mim e falou:
- Tem uma frente fria aí na frente,
- Você ta brincando? Cadê o meu whisky...traz um copo, agora!
- Não; retrucou ela firmemente, e aí percebi que aquela não seria uma viagem tão legal...;
- Que é isso? Que é isso?
- É chuva de granizo!
- O QUÊ? FALA SÉRIO! (não podia acreditar, era muita falta de sorte!)
- Chuva de granizo! É verdade...
Comecei a gritar:
-Traz a garrafa inteira!
-O que?
-A garrafa!!! Agora! A garrafa!
Mas você vai passar mal de novo: ela tentou argumentar.
- Não quero saber, preciso disso, traz a garrafa, a garrafa!
- Tá bom, tá bom, só mais um minutinho...
Não agüentei esperar, levantei e grudei na “mulher”:
- Socorro! Pelo amor de Deus me ajuda! (todo o ar blasé tinha ido pro espaço) Cadê o whisky?
Rindo abertamente a comissária me deu a bebida e falou:
- Pega leve, hein? Se comporta!
De nada adiantou as últimas palavras da comissária e minutos depois, totalmente “relaxada”, eu me encontrava partindo rapidamente para a cabine do avião, tentando ter uma “prosa” com o piloto, que desesperado, tentava se livrar de mim:
- Quem é essa louca? Eu jogo o avião no chão, sai de mim!
- Oi gracinha (Bêbado é o fim...)....vamos conversar...que botão é esse aqui?
- Ô comissária! O Que é isso? – falou apontando pra mim:
- Ai comandante, ela é daquelas que dá trabalho, mas calma aí, eu tenho a solução:
A dita acrescentou mais duas doses de bebida e deu pra mim.
Não preciso dizer que acordei no meu destino, calma como um santa, porém com dois seguranças que com certo ar de deboche, tentavam me tirar do avião e me perguntavam se eu sabia quem era a mulher que tinha deixado a calcinha no banheiro....
Abaixei os olhos e não tive coragem de investigar, já imaginando....
Acordada e de cara murcha (ressaca, claro!) cheguei ao meu destino, e já fiquei imaginando como eu faria pra voltar....e a agonia recomeçou....

O Casamento

Dizem por aí que, certo mesmo, só a morte!
As funerárias, agentes, caixões e etc. são adornos que podem existir ou não! Até sei que posso ser enterrada como indigente (nada legal...) porém, discordo desta afirmativa de forma vigorosa!
Existem outras espécies de “mortes”
Ser madrinha de casamento é uma delas!
Morre com você toda a esperança e auto estima! Todo o vestido que foi feito para dois ou mais casamentos, agora servirá apenas para um porque você engordou....ou melhor, “alargou”, mesmo com todas as dietas e academias.
Ter sido convidada para madrinha em vários casamentos me gabarita para dizer que não está enterrada apenas quem está dentro de um “esquife”, nós, as madrinhas, também estamos!
É de conhecimento popular que dá o maior AZAR ser madrinha sozinha, e que, embora não seja científico, madrinha solteira, permanecerá solteira pelos próximos anos (deviam esclarecer logo, de uma vez, a verdade, e informar que a situação não é passageira...).
Na melhor das hipóteses, a madrinha solteira, vai virar MÃE solteira.
Sou aquela que sempre vai aos casamento, como madrinha, arrumo a vida de todas as amigas e “caso” as danadas (tenho um coração grande) mas, nem o morto daquele dito caixãozinho que falei à respeito no início do tema se anima para dar aqueles passinhos certeiros...comigo, é claro!
É certo que continua a tentativa pelo príncipe; melhor dizendo, príncipe a gente procura até os trinta, após esta idade, serve qualquer coisa!
Ser convidada para madrinha, após os trinta, é uma clara demonstração (cem contra um) de desprezo, porque a noiva tem certeza de que, nem o noivo, em crise, momentos antes de entrar na nave da igreja se jogará pra cima da pobre diaba dizendo “estou com dúvidas”...
Madrinha após os trinta só tem direito a um vestido mais ou menos arrumadinho e um bom lacinho na cabeça (o bouquet será tentado mais tarde, junto com um olhar para algum desavisado presente na cerimônia).
Então você se pergunta:
Porque ter uma madrinha com faixa etária de trinta? Ela não vai guardar rancor?
Respondo aqui, os motivos pelos quais, você não deve se preocupar e ainda correr atrás de alguma, se tiver por aí:
1-Ela tá meio caidinha...
2-Ela tem esperanças de se casar, mas odeia o seu futuro marido (isso a tira do grupo de risco);
3-Pra que colocar a irmã mais velha nesta situação se você tem uma amiga?
4-Ela já tem vergonha de aparecer sozinha em todas as festas, porque todos os amigos e parentes pensam que ela é lésbica não assumida então, por isso mesmo, você ajudará colocando-a sob os holofotes e fazendo-a atravessar a nave da igreja com aquele seu amigo gay, também encalhado, fazendo assim, os derrotados ficarem num lado só da igreja e tirando a pobre de vez da jogada;
5-Você deve continuar a maldição da madrinha porque esta pobre mulher quando chegar aos quarenta e desistir de todos os homens vai ser a “tia” perfeita para seus lindos monstrinhos, já que a sua vida continuou de forma saudável e a dela foi pro brejo naqueles bailes arrumados para toda espécie de coroa, e que não deram certo, afinal, sejamos honestos, se ela fosse boa, também já estaria casada...
A revolta que parte de dentro de mim é que, como madrinha com idade avançada, sou alvo dos funcionários de cartório que sempre se divertem fazendo aquelas perguntas imbecis que não interessam nem a sua mãe e que te afastam, mais ainda, da tênue possibilidade de arrumar um “pato” se o cara tiver por lá.
Venho, então, dividir, minha indignação com relação aos funcionários, padres e pastores de plantão nos cartórios aterrorizando, nós, as madrinhas com suas perguntas e sermões sem sentido.
Pensava eu, já ter escapado da fase de madrinha, quando minha querida prima me convidou para mais uma empreitada.
A jovem também já contava com certa idade, mas como Deus é pai, o destino não quis que ELA ficasse sozinha.
Aceitei o convite com prazer, mesmo sabendo da maldição e assim, num daqueles dias de calor insuportável, nos mandamos para Madureira pra fechar o negócio.
Ao chegar no prédio vieram as reclamações, solicitações, burocracias e tudo que pode advir de uma família reunida em prol de um agente (a mulher) e uma vítima (o marido) transformando os passos do Criador em mais uma batalha humana que terminará algum dia num inferno qualquer.
De repente, no meio do Cartório, abarrotado de mulher grávida (elas costumam ir primeiro ao cartório, depois pedem a benção pra Ele...) ouço uma voz gritando o meu nome completo, pra meu desespero:
- Emilia Rachel Bendelak, Dona Emilia Rachel Ben....!!!!
Me aproximei o mais rápido que pude, mas, no meio do caminho veio a pergunta fatídica:
- Quantos anos a Senhora tem??? (Alto, muito alto)
- Por que? É ela quem vai casar; não eu!
- Mas é que tem que constar na escritura...
- Mas eu não entendo...
- Minha senhora, não enrola! Quantos anos a Senhora tem?
- Ta bom, ta bom...aí disse baixinho a minha idade.
- O quê? Não entendi!
- 36 (baixinho de novo)
- Como?
- Trinta e seis, merda!
- Ah!....
Olhei pra trás e logo notei que a nossa conversa estava sendo acompanhada por alguns casais que estavam por perto, o que me deixou ainda mais constrangida.
- Posso ir?
- Pode.
Mal virei as costas e ela deu outro berro:
- Estado civil?!!!
Não acreditei! Respondi:
- Você quer acabar comigo?
A criatura riu desembaraçadamente e repetiu a pergunta
- Solteira? Adivinhando.
Ao que respondi:
- Lógico! Você acha que se eu fosse casada teria problemas pra dizer minha idade?
- Como é a vida de solteira? Faz tempo que eu sou casada....nem me lembro mais... acrescentou a megera, maldosamente...
- É ótima.(humm...)
- Espero que você encontre alguém....
- Não quero, obrigada, respondi sucinta.
- A vida melhora muito depois que a gente casa.....o tempo passa...
- É......
Após o vexame das perguntas, encaminhei-me ao local onde minha prima ia casar e esta vendo a minha cara, começou a rir e perguntou:
- Que foi, você está com uma cara....
- Encontrei a mulher dos sonhos de qualquer pessoa....
- Que tipo de pessoa
- As mortas!
E assim, partimos para o casamento e resolvemos a questão do encalhamento da minha prima.
O melhor foi o juiz ( um baixinho com cem anos de idade) que me viu, ficou apaixonado e começou a me azucrinar lançando olhares lânguidos e cheios de paixão, ao final o vovô perguntou:
- Solteira?
Ô vidinha!...Ninguém merece...