Aquele não era um dia comum na cidadezinha em que morava, várias garotas encontravam-se reunidas desde as primeiras horas da manhã, em alegre conversa, armadas de velas, meias, cuecas, calcinhas, café, facas, estiletes e outras pequenas parafernálias e, junto com tudo isso, toda sorte de simpatias e bruxarias, cheias de esperança naquele dia tão especial.
Era dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro....
Envolvidas na busca do homem ideal, do príncipe encantado, do cavalheiro que galopava no cavalo branco e talvez, um pouco mais realisticamente, do sapo desencantado, mas com boas pernas e braços, sonhávamos todas, com o amado do futuro.Por óbvio, sequer dávamos bola àqueles que não eram, nem de longe, o tal príncipe ou esparrela assim, e que estavam ao nosso lado, sofrendo conosco, o dia inteiro, como escravos no meio de todos aqueles objetos de tortura, ou seja; os namorados.
Em meio a este burburinho tipicamente feminino, (porque homem que é homem, não pede por namoradas, mas sim, pra se livrar delas!), me peguei ouvindo uma estorinha que me pareceu interessante - para dizer o mínimo – sobre um negócio com o Santo, que se daria da seguinte maneira:
Teríamos que enfiar a faca (com muita força) numa bananeira à meia-noite, rezar alguns padre-nossos e, também, algumas ave marias, rodopiar descabeladas de saia comprida, umas cinco vezes ao redor da maldita árvore e depois, ler uma simpatia que envolvia o tal pedido para o Santo em questão, com uma lista de promessas a serem cumpridas daquela data, até o dia fatídico, qual seja? – o casamento; e então, ficar de joelhos (promessa que é promessa, só serve de joelhos), amarrar o pobre do Santo de cabeça para baixo, no pé da árvore e tomar um looongo gole de uma bebidinha – cachaça - e passar um perfume vagabundo qualquer do tipo: “agarra homem”, “faz querer quem não me quer”, “carrapatinho”, “chama” e principalmente, gritar bem alto um “pelo amor de Deus, Santo Antônio, me arruma um homem!”, e então, cumpridas todas essas formalidades legais e eclesiásticas, no dia seguinte, veríamos, finalmente, no tronco da árvore, a primeira letra do nome do futuro “marido”, o que facilitaria - e muito - os anos vindouros, pois não levaríamos mais fora do que o necessário, já que, à partir de então, só namoraríamos o cara que tivesse a tal inicial, eliminando todas as outras possibilidades porque não seria a escolha do santo.
Concluí, então, que a estória era verdadeira, com a sabedoria dos meus quinze anos, e resolvi por em prática a fórmula milagrosa...Ansiosa por determinar o futuro, juntei-me a uma amiga (também muito carente) e munidas de todos os sacro-objetos, aguardamos a chegada da meia noite.
Torno claro que não me dei conta que ficar acordada até a meia noite com uma faca na mão, seria indício de um problema, primeiro porque sempre manejei bem o dito objeto, depois porque era tudo realmente inocente, não tinha a intenção de esquartejar ninguém a não ser a pobre bananeira, que, pensava eu, estava ali só para me ajudar porque afinal era aquele o seu destino!
Meu pai, desconfiado, me olhava com um ar estranho... mas como ele sempre me olhava mesmo, não dei a menor bola e fui pro quarto tirar um cochilo junto com a amiga escolhida para a empreitada.
Decididas a ir em frente, colocamos o relógio para despertar às onze da noite e assim que o dito reclamou, acordamos cheias de atitude.
O local escolhido para a feitura da transação celestial era um terreno baldio, com muitos metros de mata amazônica, ermo, sem luz próxima, nos fundos de uma casa abandonada e com mil histórias rolando por lá, desde a um possível assassinato até aparições fantasmagóricas.
Sem pensar muito no problema (às três horas da tarde) decidimos que não tínhamos medo de espíritos e fantasmas e permanecemos irredutíveis.
Até àquela hora....
Caminhamos até a metade do caminho a primeira metade com passos decididos a outra....com passos indecisos, e com a confiança já um pouco abalada, mas, curiosas para saber se o Divino nos reservara algo melhor do que os patetas que nos namoravam, reunimos o pouco de coragem que nos restava, e fomos à luta.
Ao chegar no local do sacrifício, tivemos que escalar um muro de alguns metros da altura – não sei quanto, mas era alto - o que já nos deixou consideravelmente abaladas – nunca havíamos escalado nada!
Paramos para resolver o problema, pensamos e decidimos, que eu pularia primeiro e que a outra escalaria o tal muro através de umas fendas, já que era mais magra; assim, superada esta fase, entramos no local soturno.
Do outro lado, bem no meio do matagal, encontrava-se a bananeira que resolveria nossos problemas sentimentais, com uma lúgubre luz da lua por detrás, o que tornava o local ainda mais macabro... mas, dispostas a superar qualquer obstáculo para saber quem seria o escolhido, enfrentamos, de mãos dadas o pavor e corremos em sua direção dispostas.
Começamos o ritual, estraçalhei o tronco de bananeira, soltei os cabelos, pulei ao redor da árvore, me ajoelhei, rezei, pedi bem alto um homem e tendo dado por encerrada a minha sessão, passei o facão pra amiga.
Então... bem no meio do assassinato da bananeira, ouvimos um murmúrio:
- Uhhhhhhhh!!!!!!
Minhas pernas amoleceram....
- Cruzes! Que é isso?, disse eu,
- Não sei, respondeu a amiga também trêmula e engasgando
- Uhhhhhhhhhhh!!!!!!! - mais forte.
- Óh céus! Quem está aí? Perguntei, já pulando uns dois passos pra trás.
- Pera lá, não me larga aqui!!
- Ih! minha filha, cada um por si e Deus por todos, Adeus! Partindo em retirada e largando todos os objetos pra trás.
Nunca fui uma pessoa valente e não sei porque estava sendo cobrado de mim, uma atitude digna de um leão.
Solidadiredade entre mulheres é o bicho...
Saí correndo como um cachorro e deixei a pobre coitada, colada na bananeira, com a faca emperrada, em verdadeira crise de pânico
Quando cheguei no muro, e iniciei a escalada, ouvi outro grito, ainda mais alto:
- UHHHHHHHH!!!!!!
Perdi as forças....
Naquele momento, sem saber direito, como, minha amiga que estava a muitos metros de distância, passou por mim e - com um pulo! – um único pulo! foi parar do outro lado do muro, deixando impressionado qualquer atleta olímpico e me deixando completamente sozinha no matagal.
Minha perna, virou um “concreto” e não consegui dar mais nenhum passo sequer! Desesperada começei a gritar:
- Socorro!!!Socorro! dizia eu batendo no muro quase derrubando-o e esfolando os pés tentando pulá-lo.
- Socorro!!!!
Já do outro lado a amiga gritava: Quer ajuda? Vou chamar o lobisomem, sua cretina! Cuidado com as cobras!!!Há, há, há!!! Bem feito!!!
Castigo vem a cavalo.....
De repente, olhei pra trás e vi uma luz vindo em minha direção.....não acreditei!!!......que é isso!!! Que é isso???!!!
Todos os meus fios de cabelo se arrepiaram...o pêlo Rei também...
Senhor! Senhor! já gritava chorando....
Ô Santo Antônio, qual é? Prometo que se sair daqui nunca mais te peço um marido, juro!!
Então, com os olhos semi abertos, vi que a luz era de uma lanterna e que meu pai a segurava, aos risos, junto com meu namorado quase me matando de susto!
Assim, os dois me assistiram pagar o maior mico....E se divertiram um bocado.
Fala sério Santo Antônio....
Que que aconteceu:? Não rezei direito?


14:15
Emília Bendelak
