sábado, 24 de julho de 2010

CHURRASCO EM FAMÍLIA

Ela estava empolgada. O marido finalmente decidira sair da depressão e comemorar o aniversário de 50 anos com um suculento churrasco. Aceitou que era um homem maduro, que até aquele dia tivera uma vida boa com mulher, dois filhos, um cachorro da raça Golden retriever, uma empregada que não se parecia com a Juliana Paes, um bom emprego e etc.
É.... a vida era até boa... Meio monótona... mas ainda assim, boa. Meio cansativa para vinte e cinco anos, mas ainda assim, agradável. Ela não podia reclamar, depois de tanto tempo ainda tinha companhia sábado à noite para assistir o Telecine e as tardes de Domingo para o cinema...Sim, estava tudo bem, decididamente, estava tudo, mas tudo mesmo, certo....alguns calmantes na hora certa e o casamento voltava pro lugar, nada demais, só o suficiente .... Afinal, o que se pode esperar da vida após 25 anos de casamento?
Ela tinha uma idéia - A morte – pensou cinicamente. De preferência aquela rápida, mas ela não diria uma palavra sobre isso. Nunca.
Eles moravam num daqueles prédios que tem uma área de laser enorme e quando aqueles malditos adolescentes não faziam festa, com a barulheira infernal de praxe, tudo era uma beleza, quase um parque particular. Ela havia reservado a área da churrasqueira com a antecedência necessária, convidado os seus amigos, os amigos do trabalho do marido (não eram muitos) e a família inteira dos dois (que era enorme). O espaço estava reservado para o domingo, e ela estava tremendamente ansiosa pra mostrar a todos que seu casamento era perfeito e que era a esposa ideal. Os homens do trabalho dele morreriam de inveja. Seu marido até teria ciúmes dela pela primeira vez em 10 anos. Tinha ido ao cabeleireiro (seu cabelo estava com a tal chapinha), ao depilador (ainda tinha marcas no corpo) e por último, havia escolhido cuidadosamente a peça de vestir. Elegante e básica, de salto, mas não muito alto. Nada muito chamativo afinal ela era a primeira dama daquele churrasco. Nada de vulgaridades.
Compras feitas. Planos ideais. Chegou o Domingo.
Pela manhã, o marido, embora meio ressabiado, havia aceitado os parabéns dela e dos filhos com um ar de alegria – falsa alegria - estampado na testa. Um dos filhos - num gesto extrema inteligência e sensibilidade - deu ao pai uma cadeira de balanço. O constrangimento foi geral. Ela, a esposa, havia ficado indignada, o outro filho ficado com cara de tacho, mas ele, magnânimo, disse que tava tudo bem...afinal, o que poderia se esperar quando se faz 50 anos?
E chegou a hora da festa. Ela desceu junto com o marido que fizera questão de preparar o churrasco (ela não entendia qual era a dos homens e seus espetos, mas vá lá...tudo bem) e foi convocada para ser sua fiel escudeira naquele momento “família”. Ela estava se sentindo, se achando... Poderosa. Família e amigos estavam chegando e trazendo alegria e presentes. A mãe, a sogra, a vovó, os tios, o chefe e os sobrinhos, estavam todos lá, prestigiando o princípio da decadência masculina do Otto.
Como era esperado tudo corria às mil maravilhas. Ela reinava absoluta como primeira dama. Levava a cerveja pro marido. Entretinha a todos com elegância e sensualidade, até mesmo estava sendo capaz de flertar com o colega do trabalho, mas nada demais, apenas pela valorização do ego. Artigo importantíssimo nestes dias contemporâneos, já que é de suma importância você se valorizar, supervalorizar, ultra, mega ter valor, enfim, moderno e fashion. A fila anda. Era o recado pra ele. O Otto.
E o Otto continuava por ali. Bancando o Chef do churrasco, falando besteira e dando ordens. Ele entendia de carne e ela foi convocada para cortar as cebolas e os pimentões. Passar pasta no pão e ainda lidar com o alho, Que droga! O alho. As coisas agora já estavam começando a não ir para o caminho que ela havia traçado com tanto cuidado. Seu cabelo começava a desgrenhar e suas unhas já estavam borradas. Das mãos era melhor nem falar. Uma parte cheirava a cebola, a outra a alho e todos os cheiros juntos cheiravam mal e davam vontade de vomitar. Seu colega de trabalho estava começando a se desencantar. E quando ela pensou que seu fosse ser ruim, viu que estava enganada. Ficou pior.
Eis que entra em cena aquele seu sobrinho suspeito, que numa enorme demonstração de carinho pela avó, resolveu segurar a onda e veio acompanhado de uma mulher.
- Uma mulher? Minha irmã perguntou
- E que mulher...falou meu filho descendo os olhos
- O quê? Como? Perguntei. Foi então que me virei e por pouco não tive um ataque fulminante do coração.
“Ela” havia invadido a minha casa, entrado no seio familiar, ela, ninguém menos do que a figura mais mítica que possa existir em festas, comemorações e principalmente, num churrasco: Senhoras e senhores...apresento-lhes a “Diva da laje”, o ultraje das famílias. A famosa e temida...”Piranha do churrasco”.
Puta que pariu... – gelei por inteiro.
Foi uma entrada triunfal.
Ela caminhava quase que em câmera lenta – o cabelo que um dia fora preto e afro - era agora “louro platinum” e liso escorrido – as unhas de um vermelho peculiar, a blusa era aquela branca, transparente, que deixava aparecer o biquíni ínfimo e os seios enormes siliconados e palpitantes, e que, num gesto de ousadia, estava amarrada para deixar à mostra a cintura fina e a barriga esculpida. Naturalmente, essa “Deusa da laje” portava um short minúsculo que fazia às vezes de cinto - já que a parte de baixo de seu biquíni estava preso e à mostra nele – mas, mais que tudo isso, havia aquele salto 21 com uma pequena plataforma que acentuava o belo par de coxas grossas esculpidas pela academia de musculação, muito sexo e sem nenhuma - nenhuma mesmo - maldita celulite.
O “traje típico” estava completo.
A acompanhante do Bob era o meu pesadelo feminino.
Bob – meu sobrinho – veio até mim e apresentou sua amiga.
- Sheila, esta aqui é a minha tia preferida! Tia, essa é a Sheilinha.
- Sheilinha..prazer – falei com sorriso entre os dentes.
- Oi, “tia” – tudo bem? Prazer...
Que merda é essa? Essa perua me chamou de tia? Tia? – pensei aos berros, mas falei com baixa educação – Ora querida, que é isso? Me chame de Alda.
- Há, claro! Alda..que nome forte, lindo..antigo, né?
Meu humor foi pro brejo definitivamente e em pensamento me manifestei apropriadamente junto com o meu coração que já estava com taquicardia. Virei um “lexotan” na boca.
- Antiga é a sua profissão... – deveria ter falado, mas como sou uma dama, uma lady, falei outra coisa - Nem tanto querida, nem tanto! – disse – Vocês não querem se sentar ali?
Apontei para uma mesa lá no final da área de laser, bem escondida, por detrás de uns arbustos. – Eu levo vocês!
- Que nada, tia! Disse o maldito Bob – Vamos ficar por aqui e ajudar vocês! Oi tio Otto!! Tudo bem?
Aí eu vi a cara do Otto...meu miserável marido, com um ar apatetado pra cima da tal Sheilinha – a piranha.
Otto! – Minha voz soou num tom um pouco mais grave do que imaginei e com uma nota esganiçada – Vem cá!
Otto ouviu minha linda voz e recebeu tenso o beijinho doce que a tal Sheilinha estava tascando nele.
- Muito prazer... – totalmente sem jeito
- Nossa! Nem dá pra acreditar que o Senhor tenha cinqüenta anos, parece que tem trinta! Tão inteiro...sua esposa também está muito bem...que casal mais bonito.. fico feliz em ver que ainda existem casais que vivem felizes juntos....meus pais se separaram quando eu ainda era menina – falou a “pobre coitada”.
- vou dar um chute nessa perua...vou derrubar esta plataforma... – pensei baixinho
- Que é isso Sheilinha, - disse Otto sensibilizado - Não me chame de senhor senão você me ofende...
- Foi mal – entre risinhos – Otto.
Senti que o mal rondava minha casa. Era o momento de tomar uma atitude. O Otto ia me pagar – pensei e olhei torto para aquele cretino.
Resolvida a tirar aquele perigo seminu dali, empurrei Bob e Sheilinha pra longe do Otto – o maldito aniversariante.
- Vamos crianças, pode deixar que a comida está sob controle se precisar a gente chama vocês, né Otto?
- Hum, claro...claro
E quando os dois estavam quase de saída eis que pulou no meio de nós o marido desgarrado de uma velha amiga.
- Oi...meu nome é Bond, James Bond – falou o “galã” com sotaque do nordestino.
- Que porra é essa? Desde quando esse palhaço se chama Bond? A Cidinha sabe disso? Pensei comigo mesma, mas educada, falei – Cadê sua mulher e seus três filhos?
- Na fazenda. Sabe jovem, tenho uma fazenda...alguns hectares...nada demais...algumas cabeças de gado...bonita essa sua blusa...confortável, me parece....
- Sheilinha esse é o Josinaldo, amigo do Otto e marido da Cidinha minha velha amiga, pai de três lindas crianças em idade escolar... – falei secamente.
- Prazer seu Josinaldo.
- Me chamam de Jô.
- Tá bom....Jô.
“Bond’, convidou os dois a irem sentar com ele. Eles foram.
Continuei a mandar pro Otto olhares “positivos e carinhosos”. Ele virou a cerveja de uma vez.
Meu filho se aproximou e falou:
- Nossa...que mulherão... – falou babando
- Não acho... – respondi despeitada – Achei essa mulherzinha bem vulgar, vou falar com o Bob depois, como é que ele me trás uma mulher desse nível pra cá? No meio da nossa família....uma indecência, uma indecência...- e continuei reclamando – quem ela pensa que é? Onde ela pensa que está? E como ela...
- Ih mãe, segura a onda....se controla, você tá chata!
- Chata eu?
Depois do desaforo do filho achou melhor se comportar e voltar a ser a tal dama que ela achava que era, ou tinha sido. Subiu no salto de novo e sorriu para todos, porém, pelos olhares que percebeu a sua volta, entendeu que seu churrasco, seu lindo churrasquinho, tinha ido pro vinagre.
Os homens estavam todos com olhar de palerma, igual ao do Otto. Exceção pra confirmar a regra, era, naturalmente, o Bob, que não era nem um pouco sensível a beleza “exótica” de Sheilinha. Não havia mesmo justiça neste mundo...
Mas o que dava medo era mesmo o olhar das mulheres convidadas.
Quase todas eram casadas, lógico! E todas, sem exceção, estavam lançando olhares fulminantes na direção da Sheilinha e na direção dela mesma. Que situação....Ela não tinha nada com isso....nada mesmo! Ela não merecia aqueles olhares...
Depois de alguns minutos, eis que chega a primeira mulher casada com casamento em risco.
- Alda, quem é aquela mulher? – Perguntou Dani quase babando.
- Não sei, veio com o Bob.
- Bob? O Bob? Mas eu pensei...
- É porque a vó dele tá aqui....
- Ahh...então, como vamos nos livrar dessa piranha? Tem veneno por aí? Essa desgraçada tá dando em cima de todos os homens, assim não dá! Olha como é que o Jô tá se comportando. Vou falar com ele! Temos que dar um jeito nisso.
Mas antes de lutar pelo casamento da amiga, eis que a Sheilinha se aproximou do Denílson, marido da Dani....A pobre coitada partiu pra cima dos dois que nem raio em dia de trovoada.
Não deu nem tempo de respirar direito e eis que a Mônica, vem pra cima de mim reclamar.
- Assim não dá Alda, quem é aquela piranha?
Mônica nunca foi reconhecida por sua paciência e categoria.
- Sugiro que a gente se junte e bote essa vagabunda pra fora!
- Calma Mônica, calma. O Bob é meu sobrinho mais querido (a gente sempre ia ao Shopping juntos) e ele tá fazendo um tipo pra vó dele...segura a onda. Não se preocupe, ninguém vai dar em cima de seu marido.
Falei isso porque o marido da Mônica, o Alves, é daqueles que vive com a cara grudada na televisão assistindo futebol, com várias garrafas de cervejas ao redor e muita calabresa, e naturalmente isso afetava o seu visual másculo e ele parecia uma bola gigante de pilates.
Mas estava errada.
Sheilinha entendia do negócio como um repórter profissional. Sabia tudo sobre futebol. Quem era o goleiro do flamengo, quem era o atacante que mais fez gol no campeonato amazonense, quem eram os apresentadores do Sportv e etc.
Alves estava apaixonado.
Mas Mônica estava atenta e de forma inteligente alegou uma tremenda dor de cabeça, e tirou o Alves a contragosto do churrasco.
Mas Sheilinha não se deu por vencida.
Quando menos se esperava Sheilinha voltou sua atenção para o marido de sua irmã. O Carlos Eduardo.
Carlos Eduardo era daqueles homens oprimidos pelo casamento, pelos parentes, pela mãe, enfim, por todos, minha irmã só se aproveitava deste fato, nada demais, ela não tinha culpa se ele não tinha opinião sobre nada. Enfim, Carlos Eduardo era um homem apagado e sem graça. Careca, magrinho como um alfinete e calado, insuportavelmente calado.
Mas Sheilinha sabia tirar o que havia de melhor das pessoas e para surpresa de todos e principalmente de sua irmã, Carlos Eduardo se transformou num eloqüente convidado.
Falava quase tanto quanto uma solteirona de meia idade, e até sobre o Big Brother ele foi capaz de discorrer. O mais estranho é que ele era informadíssimo, para surpresa de todos.
Sheilinha dominava o assunto como ninguém e os dois descobriram que tinham muito em comum. Quem deveria sair da casa, quem era o mau caráter, o bonzinho, enfim, viraram amigos pra desespero de minha irmã que resolveu dar um basta na situação e deu um safanão no marido que para a surpresa de todos rebateu e devolveu o tal safanão. Os dois resolveram rodar a baiana e acabaram se pegando. Carlos Eduardo parecia um pai-de-santo enfurecido. Um vexame.
Depois de minutos confusos conseguimos fazer com que os dois fossem para casa.
Sheilinha havia se comportado com bastante altivez e não tomara conhecimento da briga. Afinal, ela era um Ser Superior e deusas não se abalam com o barraco alheio. Não era problema dela.
O colega de trabalho, meus filhos, todos os sobrinhos, enfim, todos os homens só tinham um olhar, numa mesma direção – a bunda da Sheilinha.
A confraria das bruxas estava formada. Todas as mulheres e namoradas queriam a cabeça da Sheilinha menos uma delas, a solteirona, que foi ser gentil e caiu na besteira de elogiar o corpo da nossa Deusa. Pronto, mais uma vez a Sheilinha se deu bem. Foi maravilhosa. Aconselhou a jovem a freqüentar a academia, passou receitas lights, diets e vegetarianas para a pobre gordinha, que maravilhada anotava tudo na esperança de um dia poder botar toda aquela massa de gordura em ordem e conquistar uma velha paquera que nunca dava mole pra ela. Empolgada, a jovem gordinha resolveu tomar aulas de aeróbica naquele mesmo instante e colocou o som na caixa.
Maldita gorda...
Sheilinha deu um pulo da cadeira e foi andando de costas, no sapatinho, para o meio do salão. Foi um acontecimento... Ela sambava curto e com a habilidade de uma passista, foi descendo devagar, rebolando até chegar ao chão sem perder o equilíbrio. Os homens enlouqueceram. As mulheres também. Não pelo mesmo motivo, claro! Meu filho que nunca prestou, entendeu o momento pelo qual a Shelinha passava e quis dar uma força. Escolheu a “dança do créu” e a nossa “querida” Sheilinha, mostrou a que veio...
O Otto estava bêbado.
Os maridos estavam bêbados.
As mulheres estavam bêbadas.
E ficaram muito mais depois que a Sheilinha mostrou que conseguia fazer a dança do creu até a rotação cinco, em cima do salto.
Não vou dizer que dava pra ver os pêlos pubianos da Sheilinha, porque naturalmente ela se depilava, mas que havia a intenção de mostrar, havia... e isso era claro! Para todos...
Foi um Deus nos acuda!
Mulheres levando seus maridos debaixo de porrada para casa, muitos garotos se debatendo para pegar o telefone da Sheilinha, e alguns pedidos de divórcio foram feitos ali mesmo.
Então, finalmente a Vovó Naná tomou as rédeas da situação e deu fim aquela bagunça.
Desligou com a bengala o aparelho de som, chamou o Bob e a Sheilinha e falou horrores pros dois. A Sheilinha desatou a chorar, disse ser religiosa e que acreditava no casamento e etc...que tinha ficado muito magoada e que não era sua intenção criar confusão. Naturalmente as mulheres não acreditaram em uma só palavra, mas nessa conversa-para-boi-dormir, eis que cai o “Bond” nordestino, o marido desgarrado, que galantemente se ofereceu para levar a pobre donzela para bem longe dali. (um motel na Av. Niemeyer).
Bom, antes ele , o Bond, do que o Otto.
E quanto ao Bob, o “prego” que trouxe a maldita Sheilinha, estava reservado uma surpresa.
Vovó falou com determinação.
- E você Bob, dá próxima vez, traga aquele seu amigo, que é bem mais interessante do que essa moça e é muito mais educado! Entendeu, menino?
Surpresa geral....a vovó era liberal....
Bob, aliviado, caiu na gargalhada e sentou-se junto a avó revirando os olhos e cruzando as pernas como uma top model, senhor de sí.
O Bob se deu bem a Sheilinha se deu bem e Alda? Alda?
Alda ficou pensando no seu sólido casamento de 25 anos
Lembram do Otto?
Pois é...bebeu tanto que caiu no sono em cima do prato e não viu a apresentação performática da Sheilinha.
Tão bonitinho...o maridinho...danadinho..tolinho...Nem viu o “lexotan” que Alda quebrou no seu copinho...

A BRUXA DA VALPARAÍSO

Ela estava parada, de frente para o armário, concentrada na escolha da roupa que iria usar dali à uma hora no aniversário de um grande amigo, pelo simples fato de que não possuía nenhuma.
Não falava isso como todas as outras mulheres que tem dúzias de roupas e são capazes de dizer que está sempre faltando alguma peça. De jeito nenhum! A reclamação era justa.
Na verdade, ela até tinha algumas boas peças, mas a grande maioria não lhe cabia apesar de desde os seus quinze anos trazer consigo roupas tamanho P, M e G para não se estressar com o quesito “vestuário” na hora de sair, pois seu peso sempre oscilara demais. Infelizmente, desta vez, a estratégia não estava dando certo já que há alguns anos não saía do tamanho G e, teimosamente, se recusava a comprar roupas novas. Então, ali, naquela noite de sábado, ela se via diante de seu pequeno e não importante impasse: Ou tentava se apertar nas roupas menores e sofria a noite toda apenas pela improvável hipótese de “se dar bem” já que seus amigos eram quase todos casados ou gays ou “jogava a toalha” e pegava uma roupa velha qualquer com o seu número real - e não imaginário – no armário e ia se divertir com os seus bons e velhos amigos casados ou gays.
Optou pela segunda versão (que era bem mais divertida) como sempre o fazia e animada, colocou um vestido preto básico prá lá de batido, pegou a bolsa e foi para a festa que ficava numa simpática rua da Tijuca de nome Valparaíso.
A festa estava bombando mesmo com um maldito Dálmata latindo ferozmente na porta de entrada da casa e assustando todo mundo. Todos estavam lá, e todos animados pelo balanço da cerveja e das batidas de frutas.
A mulher do aniversariante – Maria da Penha - já estava “encapetada” e, devidamente calibrada, servia todo mundo com um sorriso feliz nos lábios. O marido e homenageado da noite, Carlos Ernesto, também “ziguezagueava” pelo salão cheio de álcool na cabeça.
A festa seguia seu curso e Letícia Regina, agarrada a uma garrafa de “leite de côco” misturada com cachaça, contava feliz, suas antigas piadas para um novo e surpreendente grupo de rapazes não gays que havia aparecido por ali.
No meio da noite eis que entra na sala um jovem bonitão e acende o fogo da “tímida” Letícia.
Bonito, sedutor, com olhos de lince e andar de tigre macio, o galã de novela se aboletou ao lado dos novos colegas de Letícia e ela - de leitinho em leitinho - foi ficando cada vez mais animada e mais arrependida de ter colocado seu pior vestido preto.
Algum tempo depois Letícia resolveu chamar a Penha num canto e disse entre sorrisos:
- Hum... um amigo da melhor qualidade...que surpresa...
Penha, “trêbada”, não entendeu:
- O quê?
- Não, sério, sei que você não tá acreditando, mas achei aquele barbudinho ali uma gracinha...que fofo...da melhor qualidade...
- Quem? De quem você tá falando? – perguntava completamente atordoada a “abilolada” Penha.
- Do barbudinho...
- Quem?
- Ô criatura, tá surda? O barbudinho....uma gracinha..
Penha deu uma gargalhada e olhou para Letícia com ar de cúmplice em assassinato e disse:
- Deixa comigo!
Letícia tentou impedir que ela se metesse no assunto, mas não funcionou. Penha, envolvidíssima na sua veste de cupido, se mandou na direção do grupo dos rapazes e resolveu dar uma forcinha à amiga dizendo no meio deles para um dos jovens com voz animada:
- Aí cara! Minha amiga tá amarradona em você e ela é fogo! Não se interessa por ninguém, ninguém mesmo!! Se ela se interessou por você, é porque você é muito cara, MUITO!
- Eu? Disse o carinha pego de surpresa e que antes reclamava do fato de que alguma mulher malvada lhe havia partido o coração.
- É você mesmo!!
E caiu a ficha do Raimundo no meio do salão...
De repente tudo mudou! O jovem se animou com a possibilidade de tocar o coração da “megera desalmada” da turma e começou a se “achar” e Penha, ainda imbuída do espírito de algum anjo idiota, resolveu botar mais lenha na fogueira:
- Olha cara, essa mulher é difícil pra caramba...Se ela deu mole pra você, pega logo! Aproveita porque ela é fogo! Você é o cara! O cara! (igual ao nosso Lula...). Ouviu Raimundinho? Você é o cara!!
A Penha acabara de dar fim à noite da Letícia...
A pobre coitada, sem saber da confusão, continuou a jogar seu charme desajeitado para cima do barbudinho:
- É, eu sou fácil, muito fácil de me apaixonar (Letícia tinha esse tipo de conversa)...
O quando ia se pronunciar, Barbudinho foi interrompido pelo tal do Raimundinho:
- Eu não! Amor não existe!
Letícia tentou ser suave.
- Que é isso companheiro... amor existe sim! Tanta gente se apaixona por aí...
Aí vem o “amargo” outra vez, com suas sábias conclusões:
- Tudo bem, eu amo a minha mãe... e ela me ama!!
Letícia, de verdade, já estava a fim de dar um “passa fora” no tal do Raimundinho, mas se controlou e continuou jogando seu charme para o Barbudinho:
- E você...é casado? Mora com alguém? - aqui entra a parte da investigação criminal a que todos os candidatos de Letícia se sujeitavam - ou segue invicto?
O barbudinho respondeu rindo, bem humorado:
- Invicto! Sou assustado com alianças por natureza.
Letícia começou a ri. Concluiu que o galã era bem engraçadinho e ela adorava homens engraçados.
- Eu já morei com uma mulher! Disse, entrando na conversa, o danado do Raimundinho.
- É mesmo? Perguntou Letícia friamente.
- É! Mas não deu certo. Eu não me apaixonei! Eu não acredito no amor, o amor não existe!
Letícia não era expert na arte da paixão, mas aquele cara ali estava sentindo a maior dor-de-cotovelo do planeta! Apostava três números de seu manequim como aquele carinha tinha levado um fora ou, o que é pior - um chifre.
E a noite foi passando e o burburinho seguia até que sua irmã e seu cunhado resolveram ir embora. Letícia quis ir com eles, mas foi impedida por dois outros amigos que iriam ficar até mais tarde só para a amiga se dar bem.
O amor é lindo...
E uma “força-tarefa” foi criada para que Letícia metesse a mão na barba do alvo em questão.
Deram muita bebida para o garoto, arrumaram o vestido batido da Letícia, mandaram que ela prendesse o cabelo, que desse o seu melhor sorriso e naturalmente mandaram a jovem não ir muito “a fundo” na questão do interrogatório. Também avisaram a pobre coitada que sua risada era horror - muito alta - e que ela não deveria exagerar nos gestos e por aí afora... (basicamente desencarnar e dar lugar a um outro espírito mais evoluído).
E Letícia estranhamente aceitou e continuou a mandar a maior “letra” para o Barbudinho.
Tudo corria relativamente bem, com Letícia comportada e tudo o mais, até que a confusão que a Penha criou, explodiu.
O inconsolável rapaz chegou por detrás e meteu a mão na cintura da Letícia puxando a jovem para uma escadaria que ia dar na casa do Dálmata.
Letícia apavorada tentava compreender a situação:
- Peraí! Que diabos tá acontecendo? Me larga! Me larga! - mas Raimundinho, animado pelas besteiras que Penha havia falado tentava arrastar Letícia para o canto escuro debaixo de uma escadaria enorme onde se encontrava o Dálmata furioso. (Letícia começou a entender o que aquela gatinha francesa passava fugindo do Pierre – O gambá.)
Letícia, em desespero, se debatia tanto que acabou por conseguir se soltar e escapou do Dálmata e do inconveniente Raimundinho.
Para sua surpresa estavam todos rindo na sala, inclusive o barbudinho que entre outros, acreditara no papo alucinado da Penha.
Morta de vergonha Letícia perguntou para o “incauto” barbudinho o que estava acontecendo.
- Ué, todo mundo tá sabendo que você tá interessada no Raimundinho.
- O QUÊ!!???
- Ué, não é?
- Eu não!
- Mas a Penha foi muito clara...
Maldita Maria da Penha! – praguejava Letícia com voz baixa.
A danada agora estava caída no sofá, com um enorme sorriso nos lábios, completamente apagada.
E a noite da Letícia foi mesmo para o brejo...
Raimundinho, sem se dar por vencido, de novo agarrou a cintura dela, que dessa vez, se descontrolou por completo e mostrou toda sua categoria.
Transformou-se na “Abominável Letícia das Neves” e colocou o malandro no seu devido lugar soltando um sonoro palavrão.
- Me larga, PORRA!!!
Constrangimento geral na sala.
Raimundinho – quase sóbrio - queria ir embora e sumir dali o mais depressa possível.
Depois de minutos constrangedores Raimundinho e Barbudinho se foram.
Letícia ficou em pé, na sala, saboreando seu “leitinho”, sem se importar realmente com aquele final desastroso – já estava costumada aquele tipo de vexame.
Alguns convidados revoltados com seu desmazelado comportamento lhe passaram alguns sermões.
Carlos Ernesto resolveu que estava na hora de terminar a comemoração:
- Deus me livre de outro aniversário desses...
Maria da Penha continuava dormindo feliz, nos braços de Morfeu.
Letícia e mais dois amigos saíram da casa e pegaram um táxi.
Os dois desataram em mais uma série de infindáveis recriminações.
Maria Marta mostrou a que veio:
- Pô! Assim não dá! A gente se esforçou pra te arrumar um namorado e você faz um papelão desses!
- Papelão?? Eu? Mas eu não tava afim daquele cara... eu queria o outro...
- Não interessa! Não dá pra escolher sempre!
- O quê? Como assim?
- É isso mesmo! Você não pode destratar as pessoas desse jeito!
- Mas eu não destratei ninguém! O cara tentou me agarrar, tentou me levar prum canto escuro! Não sou mais uma adolescente!
- Pois devia ter ficado com ele mesmo! Tá pensando que tá fácil arrumar homem por aí? Com a sua idade? E o que é pior! Com a sua personalidade?! Até dinheiro você recebeu!
- Dinheiro?
- É. Dinheiro. Sua irmã deixou dinheiro!
- Meu Deus! Pra quê?
- Pra você beijar na boca!!! Deus sabe o quanto você anda precisada! E o quanto a gente tenta resolver seu problema!!! – disse aos berros a furiosa amiga de Letícia - E só pra constar, em alguns lugares isso é até chamado de dote!
- Dote?
O taxista caiu na gargalhada.
O outro companheiro se manifestou:
- É, mas como sempre, você colocou tudo a perder! Eles iam deixar uma pequena fortuna, mas achamos demais... hi,hi... tudo bem que eles estavam a fim de se livrar de você...eles já tavam fazendo qualquer negócio... mas achamos que você não merecia tanto...
Letícia arregalou os olhos: Cadê a grana?
- Tá aqui.
- Passa pra cá....
Waldir pulou:
- De jeito nenhum! É pra pagar o táxi!
E, totalmente indignado, informou:
- Os meninos te deram um apelido.
- Qual?
- Bruxa!
Dito isso, os dois caíram de vez na pele da Letícia e o taxista foi se divertindo com a cara da garota pelo trajeto.
No dia seguinte, todos se reuniram para fofocar e lançar teorias sobre o mau comportamento da personalíssima gordinha.
A principal conclusão era de que Letícia deveria ter ficado com Raimundinho, porque “quem não tem cão caça com gato” e afinal, ela tinha que pensar na sua “avançada idade”... Desse jeito ela ia terminar seus dias sozinha e etc...
Duas amigas lançaram mais outras duas teorias:
- A primeira era de que Letícia tinha medo de intimidade e a segunda jurava que ela deveria “relaxar” para arrumar alguém...
A “psicóloga” e a “yogue” do relaxamento continuaram perturbando a pobre coitada, cheias de “orientações” para ela atravessar melhor “os caminhos da vida”.
Enfim, o dia foi passando e Letícia, divertida, ouvia todas as bobagens e pensava em como era ótimo ter tantos amigos e todos estarem tão preocupados com seu bem estar.
Pensava também que já estava na hora de comprar um novo vestido preto. Tamanho G.