Era um daqueles dias em que se acorda convencido de que foi chamado,...Por Ele!
Você, ninguém mais! - ouviu enquanto dormia! – você seria o próximo da lista...
Que merda!
O drama tinha começado na semana anterior; quando soube que ia viajar, passou mal a semana toda, freqüentou banheiros públicos e andou vagarosamente pelas ruas, pensando no fim... (como sempre o fazia quando sabia que ia viajar);
– Você vai pra Porto Velho, disseram, naquele malfadado dia, - acabou ali - semana que vem.....
Venho aqui explicar que estes sentimentos se apossaram de mim quando soube que deveria viajar, e que o meio de transporte seria o “segurérrimo” avião!
O amigos - já sabendo do meu pavor - diziam solidários:
- Não se preocupe, eu procuro o teu nome na lista de sobreviventes!
- Não tô preparada....
Vale dizer que o avião - contra todas as pesquisas - na minha cabeça, não é nem de longe o meio de transporte mais seguro do mundo, nesta categoria eu voto no pé!
Certamente não se leva a sério as minhas verdades...mas eu não sei de onde tiraram isso! Estatística uma ova! Sou Taurina!Momentaneamente conformada com o destino cruel, lentamente arrumei as roupas (pretas) restantes e aguardei – nada ansiosa - o fim do dia (que passou lentamente) e quando caiu a noite parti pro aeroporto.
Chegando nos arredores, ao ouvir o ronco dos motores tão de perto, outra vez, aquele sentimento macabro - que os neuróticos e histéricos sabem bem - começou a tomar conta de mim: suor, tremedeira, boca seca, dores no corpo, falta de ar, falta de ar...ar...Ai meu Deus...
Tentei , a pulso, me controlar!
Ainda sufocada, fui até o balcão - com pernas pesadas - e tendo mais um de meus chiliques.
Então fui andando e falando comigo mesmo....é chilique, se controla; é chilique, se controla....se controla....
Momentos depois, nada controlada cheguei ao meu destino.
Com algumas pílulas na mão..e disposta a comprar qualquer briga pra sair daquela situação, me aproximei do balcão, com o velho aperto no coração, e reuni o que me restava de coragem para perguntar se estava tudo certo.
A atendente me recebeu bem, mas me deu aquele olhar (quem bebe em vôo, sabe a que tipo de olhar me refiro) que não deixa dúvidas quanto a que tipo de boa viagem ela está te desejando, assim, cada palavra que ela dizia eu interpretava da maneira que, tenho certeza, é a correta :
- A srª quer que cadeira?(a que vai virar carbono ou a que vai voar?)
Ao que respondi:
- A última! (em caso de morte ou fogo, eu levo todo mundo comigo)
A senhora pode aguardar ali na sala de embarque...(trouxa, vai rezando...)
- Tudo bem, obrigada. (desgraçada, vou puxar teu pé se eu morrer!)
Passada toda essa série de formalidades encaminhei-me àquela sala claustrofóbica cheia de gente (inclusive as que iriam morrer naquele dia....) e juntei-me a todas elas na sala de embarque.
Momentos depois, o chamado....
- Passageiros do vôo....embarque!
- É agora! Não vou, não vou!
Minha respiração começou a falhar de novo, o coração começou a bater mais forte – tinha chegado a minha hora...e, como boi no abatedouro, encaminhei-me até a porta do avião e entrei!
Naquele momento a comissária me reconheceu... ( foi constrangedor...) e disse:
- Oi, eu lembro de você!!! De novo??? Você é aquela que costuma dar escândalos, não é? Eu me lembro do outro vôo... vamos lá de novo?
Ninguém merece,...abaixei os olhos, envergonhada;
-A senhorita deve estar me confundindo com alguém - acrescentei blasé ;
Que nada “filhinha”, da última vez que você voou, vomitou no meu colo! Tava de porre! Me lembro bem, até tentou agarrar o comissário! (ó céus!) Já superou o medo? Tá melhor? Que figura....e saiu rindo.
Mulherzinha desagradável...pensei e acrescentei:
-Olha, vamos fazer o seguinte, você me traz uma dose de whisky, e eu te deixo em paz, ok? (negociei).
- Tudo bem, só um minutinho.
Fiquei aguardando o tal whisky quando, de repente, todo o meu auto-controle, (obtido a duras penas com a bebida e os remedinhos na sala de espera) foi embora no momento em que aquela merda subiu.
O desespero recomeçou lentamente....calma....calma.....tudo bem.....estava conseguindo.....calma....calma.....ave Maria, cheia de graça (comecei a ficar roxa...) Ave Maria, cheia de graça...(como é que é mesmo?) Meu Deus!!!! Esqueci! Ave Maria...Ave Maria....
Naquele momento o avião começou a chacoalhar e chacoalhar, começou a tremer e eu também!
- Que merda é essa?
A engraçadinha se virou pra mim e falou:
- Tem uma frente fria aí na frente,
- Você ta brincando? Cadê o meu whisky...traz um copo, agora!
- Não; retrucou ela firmemente, e aí percebi que aquela não seria uma viagem tão legal...;
- Que é isso? Que é isso?
- É chuva de granizo!
- O QUÊ? FALA SÉRIO! (não podia acreditar, era muita falta de sorte!)
- Chuva de granizo! É verdade...
Comecei a gritar:
-Traz a garrafa inteira!
-O que?
-A garrafa!!! Agora! A garrafa!
Mas você vai passar mal de novo: ela tentou argumentar.
- Não quero saber, preciso disso, traz a garrafa, a garrafa!
- Tá bom, tá bom, só mais um minutinho...
Não agüentei esperar, levantei e grudei na “mulher”:
- Socorro! Pelo amor de Deus me ajuda! (todo o ar blasé tinha ido pro espaço) Cadê o whisky?
Rindo abertamente a comissária me deu a bebida e falou:
- Pega leve, hein? Se comporta!
De nada adiantou as últimas palavras da comissária e minutos depois, totalmente “relaxada”, eu me encontrava partindo rapidamente para a cabine do avião, tentando ter uma “prosa” com o piloto, que desesperado, tentava se livrar de mim:
- Quem é essa louca? Eu jogo o avião no chão, sai de mim!
- Oi gracinha (Bêbado é o fim...)....vamos conversar...que botão é esse aqui?
- Ô comissária! O Que é isso? – falou apontando pra mim:
- Ai comandante, ela é daquelas que dá trabalho, mas calma aí, eu tenho a solução:
A dita acrescentou mais duas doses de bebida e deu pra mim.
Não preciso dizer que acordei no meu destino, calma como um santa, porém com dois seguranças que com certo ar de deboche, tentavam me tirar do avião e me perguntavam se eu sabia quem era a mulher que tinha deixado a calcinha no banheiro....
Abaixei os olhos e não tive coragem de investigar, já imaginando....
Acordada e de cara murcha (ressaca, claro!) cheguei ao meu destino, e já fiquei imaginando como eu faria pra voltar....e a agonia recomeçou....


11:38
Emília Bendelak
