Já haviam se passado quase dois dias quando tive que retornar ao Rio - convém informar que havia andado relativamente “sedada” naqueles dias .
Sem graça e sem filho, sem companhia e novamente alcoolizada, mais uma vez vi meu “passe” a venda para as terras celestiais.
Com uma super imaginação e na certeza de que, DESTA VEZ, eu iria “partir”, me despedi de Porto Velho e entrei no Avião. A primeira parte da viagem foi surpreendente boa, claro que tive os chiliques de sempre, mas, com o recente vexame ainda límpido na memória, controlei-me melhor e, desta vez, fiz amizade com o piloto, em vez de tentar agarrá-lo. ( foi menos humilhante!).
Desci no Aeroporto de São Paulo e novamente fui parar no balcão...(horinha mais sem graça...)
Naquele momento a atendente pegou meu bilhete e falou:
- Está lotado, volte outro dia;
- Ótimo... Muito obrigada, Adeus! (escapei!).
Mas, tudo foi por água abaixo quando uma outra atendente (miserável) gritou informando que alguém havia desistido.
- Srª, Srª !!! A passageira desistiu, tá aqui o seu bilhete!! Exclamou toda alegre.
Senti um aperto no coração....
- Mas e aquela senhora? (apontei para uma elegante e rosada velhinha) ela não precisa ir na minha frente? sabe como é... primeiro os mais velhos, não é?Não colou.
- De jeito nenhum! Esta senhora está aguardando outro vôo, portanto, vamos fazer seu check-in! Disse a “perua” empolgada.Me deixei arrastar para o balcão... sem forças.
Instantes depois a atendente me deu um bilhete com o cartão de embarque que marcava o número 13!
- Não pode ser sério!, 13?!
Alguém lá em cima tava brincando com a minha cara...
Peguei aquela porcaria, sem sangue no rosto e vi que algo pior estava acontecendo...
Um homem, com idade variada chegou esbaforido e pediu uma vaga no mesmo vôo.
O problema foi a resposta da mulher...:
- Lamento Senhor, acabei de dar o último cartão a esta senhora! .... realmente lamento! Ela é a última passageira. A Última!
Tudo começou a girar devagar.... deu uma dormência nos dedos.....
Quase pude ver, a TV Globo entrevistando o tal homem, e este entre aliviado e embaraçado, prestando informações sobre como tinha sido o seu último contato com os passageiros, balconistas e atendentes.... e como ele dera a sorte e como uma pobre mulher ( eu ) tinha dado azar....tinha pegado o último bilhete....Nº 13...Sina do número...essas coisas acontecem...
- Que pena! Era a hora dela, dizia...
Parei ali mesmo, - Não mesmo, não vou, nem pensar!!!!Tenho que dar um jeito...preciso dar um jeito!
Mas nada consegui...
Com este tipo de pensamento fui procurar consolo na garrafa mais próxima.
Estranhamente ninguém, ninguém mesmo, falava português e havia uma orquestra sinfônica, sabe Deus de que parte do mundo, embarcando comigo, ( obviamente lembrei-me de vários acidentes com equipes, turmas, colégios, jogadores) e aí pensei: ERA AGORA!!!!
Dei três passos pra trás e pude finalmente ouvir alguém falando baixinho, em português. ... - Tá lotado, vamos na cabine com o piloto.... A surdez me pareceu uma benção... Dá pra acreditar!!! Tomei mais alguns goles da garrafinha portátil e fiquei ébria rapidinho!
Entrei e, como por milagre, o porre passou!
Com real falta de ar, claustrofobia e outras neuras, já dentro do bendito avião, toda encolhida, fui colocada entre dois jovens da filarmônica (se não me falha a memória eles até eram bonitinhos), o que me deixou pior, já que eu tinha a certeza de que, até o fim da viagem, eles iriam se mandar me xingando.
Que língua era aquela?
Os dois olharam pra mim agradavelmente surpresos e tentaram aquela tática de olhares, gentilezas e beicinhos, infelizmente, (embora consideravelmente encalhada) naquele dia, eu não “tava pro negócio”, e deixei pra lá....comecei a rezar, peguei um terço ( aí eu já parecia avó dos caras)...eles perceberam e me olharam de uma forma estranha.....mais reza..... então começaram a rir - senti muita dificuldade de continuar naquela cadeira - mas fui ficando...
O avião levantou vôo, e aí todo o meu lado histérico apareceu.
Aos gritos e aos berros começou minha “tortura voadora” e naquele instante, consegui deixar os dois rapazes mais apavorados do que eu. O pavor é contagiante.
Quando finalmente olhei pro lado percebi que com meus gestos largos - e pouco femininos - os rapazes já, também, gesticulavam pra comissária, naquela língua esquisita, dizendo – pelo que pude perceber - que não queriam ficar mais ali e que iam processar a companhia por terem me deixado subir sem a camisa de força (tradução literal dos gestos)...não foi nada legal da parte deles....
A comissária chegou e falou:
- A senhora está assustando os passageiros!
- Eu é que estou assustada! Que merda de vôo é esse! Cadê minha bebida! Se não me trouxer, a coisa vai ficar pior! Por favor! Por favor! Whisky preciso de uma dose!!!!
- Calma senhora! Já vem! Já vem!
Finalmente chegou meu calmante. Ôh sede!
Lembrei-me dos bonitinhos da filarmônica, lembrei do meu estado civil, e já devidamente anestesiada, olhei pros lados...mas, eles já iam longe!
Ao final, eles mostravam um dedo, num gesto pra lá de popular entre os humanos deste planeta então, entendi o recado......estraguei tudo mais uma vez, só que desta vez... Fiquei com a janela!


13:15
Emília Bendelak