Ela estava parada, de frente para o armário, concentrada na escolha da roupa que iria usar dali à uma hora no aniversário de um grande amigo, pelo simples fato de que não possuía nenhuma.
Não falava isso como todas as outras mulheres que tem dúzias de roupas e são capazes de dizer que está sempre faltando alguma peça. De jeito nenhum! A reclamação era justa.
Na verdade, ela até tinha algumas boas peças, mas a grande maioria não lhe cabia apesar de desde os seus quinze anos trazer consigo roupas tamanho P, M e G para não se estressar com o quesito “vestuário” na hora de sair, pois seu peso sempre oscilara demais. Infelizmente, desta vez, a estratégia não estava dando certo já que há alguns anos não saía do tamanho G e, teimosamente, se recusava a comprar roupas novas. Então, ali, naquela noite de sábado, ela se via diante de seu pequeno e não importante impasse: Ou tentava se apertar nas roupas menores e sofria a noite toda apenas pela improvável hipótese de “se dar bem” já que seus amigos eram quase todos casados ou gays ou “jogava a toalha” e pegava uma roupa velha qualquer com o seu número real - e não imaginário – no armário e ia se divertir com os seus bons e velhos amigos casados ou gays.
Optou pela segunda versão (que era bem mais divertida) como sempre o fazia e animada, colocou um vestido preto básico prá lá de batido, pegou a bolsa e foi para a festa que ficava numa simpática rua da Tijuca de nome Valparaíso.
A festa estava bombando mesmo com um maldito Dálmata latindo ferozmente na porta de entrada da casa e assustando todo mundo. Todos estavam lá, e todos animados pelo balanço da cerveja e das batidas de frutas.
A mulher do aniversariante – Maria da Penha - já estava “encapetada” e, devidamente calibrada, servia todo mundo com um sorriso feliz nos lábios. O marido e homenageado da noite, Carlos Ernesto, também “ziguezagueava” pelo salão cheio de álcool na cabeça.
A festa seguia seu curso e Letícia Regina, agarrada a uma garrafa de “leite de côco” misturada com cachaça, contava feliz, suas antigas piadas para um novo e surpreendente grupo de rapazes não gays que havia aparecido por ali.
No meio da noite eis que entra na sala um jovem bonitão e acende o fogo da “tímida” Letícia.
Bonito, sedutor, com olhos de lince e andar de tigre macio, o galã de novela se aboletou ao lado dos novos colegas de Letícia e ela - de leitinho em leitinho - foi ficando cada vez mais animada e mais arrependida de ter colocado seu pior vestido preto.
Algum tempo depois Letícia resolveu chamar a Penha num canto e disse entre sorrisos:
- Hum... um amigo da melhor qualidade...que surpresa...
Penha, “trêbada”, não entendeu:
- O quê?
- Não, sério, sei que você não tá acreditando, mas achei aquele barbudinho ali uma gracinha...que fofo...da melhor qualidade...
- Quem? De quem você tá falando? – perguntava completamente atordoada a “abilolada” Penha.
- Do barbudinho...
- Quem?
- Ô criatura, tá surda? O barbudinho....uma gracinha..
Penha deu uma gargalhada e olhou para Letícia com ar de cúmplice em assassinato e disse:
- Deixa comigo!
Letícia tentou impedir que ela se metesse no assunto, mas não funcionou. Penha, envolvidíssima na sua veste de cupido, se mandou na direção do grupo dos rapazes e resolveu dar uma forcinha à amiga dizendo no meio deles para um dos jovens com voz animada:
- Aí cara! Minha amiga tá amarradona em você e ela é fogo! Não se interessa por ninguém, ninguém mesmo!! Se ela se interessou por você, é porque você é muito cara, MUITO!
- Eu? Disse o carinha pego de surpresa e que antes reclamava do fato de que alguma mulher malvada lhe havia partido o coração.
- É você mesmo!!
E caiu a ficha do Raimundo no meio do salão...
De repente tudo mudou! O jovem se animou com a possibilidade de tocar o coração da “megera desalmada” da turma e começou a se “achar” e Penha, ainda imbuída do espírito de algum anjo idiota, resolveu botar mais lenha na fogueira:
- Olha cara, essa mulher é difícil pra caramba...Se ela deu mole pra você, pega logo! Aproveita porque ela é fogo! Você é o cara! O cara! (igual ao nosso Lula...). Ouviu Raimundinho? Você é o cara!!
A Penha acabara de dar fim à noite da Letícia...
A pobre coitada, sem saber da confusão, continuou a jogar seu charme desajeitado para cima do barbudinho:
- É, eu sou fácil, muito fácil de me apaixonar (Letícia tinha esse tipo de conversa)...
O quando ia se pronunciar, Barbudinho foi interrompido pelo tal do Raimundinho:
- Eu não! Amor não existe!
Letícia tentou ser suave.
- Que é isso companheiro... amor existe sim! Tanta gente se apaixona por aí...
Aí vem o “amargo” outra vez, com suas sábias conclusões:
- Tudo bem, eu amo a minha mãe... e ela me ama!!
Letícia, de verdade, já estava a fim de dar um “passa fora” no tal do Raimundinho, mas se controlou e continuou jogando seu charme para o Barbudinho:
- E você...é casado? Mora com alguém? - aqui entra a parte da investigação criminal a que todos os candidatos de Letícia se sujeitavam - ou segue invicto?
O barbudinho respondeu rindo, bem humorado:
- Invicto! Sou assustado com alianças por natureza.
Letícia começou a ri. Concluiu que o galã era bem engraçadinho e ela adorava homens engraçados.
- Eu já morei com uma mulher! Disse, entrando na conversa, o danado do Raimundinho.
- É mesmo? Perguntou Letícia friamente.
- É! Mas não deu certo. Eu não me apaixonei! Eu não acredito no amor, o amor não existe!
Letícia não era expert na arte da paixão, mas aquele cara ali estava sentindo a maior dor-de-cotovelo do planeta! Apostava três números de seu manequim como aquele carinha tinha levado um fora ou, o que é pior - um chifre.
E a noite foi passando e o burburinho seguia até que sua irmã e seu cunhado resolveram ir embora. Letícia quis ir com eles, mas foi impedida por dois outros amigos que iriam ficar até mais tarde só para a amiga se dar bem.
O amor é lindo...
E uma “força-tarefa” foi criada para que Letícia metesse a mão na barba do alvo em questão.
Deram muita bebida para o garoto, arrumaram o vestido batido da Letícia, mandaram que ela prendesse o cabelo, que desse o seu melhor sorriso e naturalmente mandaram a jovem não ir muito “a fundo” na questão do interrogatório. Também avisaram a pobre coitada que sua risada era horror - muito alta - e que ela não deveria exagerar nos gestos e por aí afora... (basicamente desencarnar e dar lugar a um outro espírito mais evoluído).
E Letícia estranhamente aceitou e continuou a mandar a maior “letra” para o Barbudinho.
Tudo corria relativamente bem, com Letícia comportada e tudo o mais, até que a confusão que a Penha criou, explodiu.
O inconsolável rapaz chegou por detrás e meteu a mão na cintura da Letícia puxando a jovem para uma escadaria que ia dar na casa do Dálmata.
Letícia apavorada tentava compreender a situação:
- Peraí! Que diabos tá acontecendo? Me larga! Me larga! - mas Raimundinho, animado pelas besteiras que Penha havia falado tentava arrastar Letícia para o canto escuro debaixo de uma escadaria enorme onde se encontrava o Dálmata furioso. (Letícia começou a entender o que aquela gatinha francesa passava fugindo do Pierre – O gambá.)
Letícia, em desespero, se debatia tanto que acabou por conseguir se soltar e escapou do Dálmata e do inconveniente Raimundinho.
Para sua surpresa estavam todos rindo na sala, inclusive o barbudinho que entre outros, acreditara no papo alucinado da Penha.
Morta de vergonha Letícia perguntou para o “incauto” barbudinho o que estava acontecendo.
- Ué, todo mundo tá sabendo que você tá interessada no Raimundinho.
- O QUÊ!!???
- Ué, não é?
- Eu não!
- Mas a Penha foi muito clara...
Maldita Maria da Penha! – praguejava Letícia com voz baixa.
A danada agora estava caída no sofá, com um enorme sorriso nos lábios, completamente apagada.
E a noite da Letícia foi mesmo para o brejo...
Raimundinho, sem se dar por vencido, de novo agarrou a cintura dela, que dessa vez, se descontrolou por completo e mostrou toda sua categoria.
Transformou-se na “Abominável Letícia das Neves” e colocou o malandro no seu devido lugar soltando um sonoro palavrão.
- Me larga, PORRA!!!
Constrangimento geral na sala.
Raimundinho – quase sóbrio - queria ir embora e sumir dali o mais depressa possível.
Depois de minutos constrangedores Raimundinho e Barbudinho se foram.
Letícia ficou em pé, na sala, saboreando seu “leitinho”, sem se importar realmente com aquele final desastroso – já estava costumada aquele tipo de vexame.
Alguns convidados revoltados com seu desmazelado comportamento lhe passaram alguns sermões.
Carlos Ernesto resolveu que estava na hora de terminar a comemoração:
- Deus me livre de outro aniversário desses...
Maria da Penha continuava dormindo feliz, nos braços de Morfeu.
Letícia e mais dois amigos saíram da casa e pegaram um táxi.
Os dois desataram em mais uma série de infindáveis recriminações.
Maria Marta mostrou a que veio:
- Pô! Assim não dá! A gente se esforçou pra te arrumar um namorado e você faz um papelão desses!
- Papelão?? Eu? Mas eu não tava afim daquele cara... eu queria o outro...
- Não interessa! Não dá pra escolher sempre!
- O quê? Como assim?
- É isso mesmo! Você não pode destratar as pessoas desse jeito!
- Mas eu não destratei ninguém! O cara tentou me agarrar, tentou me levar prum canto escuro! Não sou mais uma adolescente!
- Pois devia ter ficado com ele mesmo! Tá pensando que tá fácil arrumar homem por aí? Com a sua idade? E o que é pior! Com a sua personalidade?! Até dinheiro você recebeu!
- Dinheiro?
- É. Dinheiro. Sua irmã deixou dinheiro!
- Meu Deus! Pra quê?
- Pra você beijar na boca!!! Deus sabe o quanto você anda precisada! E o quanto a gente tenta resolver seu problema!!! – disse aos berros a furiosa amiga de Letícia - E só pra constar, em alguns lugares isso é até chamado de dote!
- Dote?
O taxista caiu na gargalhada.
O outro companheiro se manifestou:
- É, mas como sempre, você colocou tudo a perder! Eles iam deixar uma pequena fortuna, mas achamos demais... hi,hi... tudo bem que eles estavam a fim de se livrar de você...eles já tavam fazendo qualquer negócio... mas achamos que você não merecia tanto...
Letícia arregalou os olhos: Cadê a grana?
- Tá aqui.
- Passa pra cá....
Waldir pulou:
- De jeito nenhum! É pra pagar o táxi!
E, totalmente indignado, informou:
- Os meninos te deram um apelido.
- Qual?
- Bruxa!
Dito isso, os dois caíram de vez na pele da Letícia e o taxista foi se divertindo com a cara da garota pelo trajeto.
No dia seguinte, todos se reuniram para fofocar e lançar teorias sobre o mau comportamento da personalíssima gordinha.
A principal conclusão era de que Letícia deveria ter ficado com Raimundinho, porque “quem não tem cão caça com gato” e afinal, ela tinha que pensar na sua “avançada idade”... Desse jeito ela ia terminar seus dias sozinha e etc...
Duas amigas lançaram mais outras duas teorias:
- A primeira era de que Letícia tinha medo de intimidade e a segunda jurava que ela deveria “relaxar” para arrumar alguém...
A “psicóloga” e a “yogue” do relaxamento continuaram perturbando a pobre coitada, cheias de “orientações” para ela atravessar melhor “os caminhos da vida”.
Enfim, o dia foi passando e Letícia, divertida, ouvia todas as bobagens e pensava em como era ótimo ter tantos amigos e todos estarem tão preocupados com seu bem estar.
Pensava também que já estava na hora de comprar um novo vestido preto. Tamanho G.
sábado, 24 de julho de 2010
A BRUXA DA VALPARAÍSO
14:50
Emília Bendelak

