Sem poder mais aguentar a tortura da solidão e decidida a dar uma basta naquela rotina da “espera”, acionei uma velha amiga e expus meu drama pessoal.
Sem saber pra quem mais apelar, resolvi perguntar se a jovem conhecia alguém do “meio espiritual” que pudesse resolver meu problema.
A amiga (outra solitária) disse que conhecia um cara e que ele era um tio de não sei quem e que ele era uma “fera” e que “fazia uns serviçinhos” em prol dos martirizados – como nós – assim, relutante, resolvi tentar a sorte e partimos para Jacarepaguá.
Eu devia saber que era mais uma roubada, mas, como todo castigo pra corno é pouco, saí, iludida, atráz do pai-de-santo.
O caminho era longo e cheio de muitas curvas:
- Não chega?
- Calma, é bem alí...
- Ali onde? Só vejo mato, onde é que tú tá me levando?
- Relaxa, já vamos chegar..
- Não tô gostando....
- Ih mulher, desencana, o cara é legal!
- Tem certeza? Não costumo dar muita sorte com isso, da última vez “baixou” uma figura estranhíssima...o cara era mau....sei não – disse, já esperando pelo pior.
Finalmente, chegamos numa favela (hoje em dia chamada de comunidade) e fomos recepcionadas por dois homens enormes, com semblante nada amigável.
Assustada peguei no braço de minha amiga e perguntei:
- Ôh Marielza, você tem certeza que o lugar é esse?
- Tenho, mulher, relaxa!
- Vê lá hein?
- O que vocês querem? Perguntou o “Buldog”
- Falar com o Seu José! Respondeu minha amiga
- Ah! Disse o buldog – O Pai-de-santo....mais duas....é por aqui.
Realmente...achei aquela observação um pouco grosseira, afinal, o que será que ele quiz dizer com aquilo... mais duas?
Mesmo com essa recepção, decididas a vislumbrar um futuro, enfrentamos os caras que mais pareciam saídos da terra do Piteco e entramos na favela.
É preciso esclarecer que aquela comunidade não era das mais amigáveis, e que recebemos várias espécies de olhares, e nenhum deles era carinhoso ( me ressinto disso até hoje...).
Embrenhamos por entre casas descascadas, com moradores mau-humorados e depois de umas ladeiras, finalmente chegamos no terreiro.
Lá já estava o tal do pai-de-santo, com uma roupa branca e uma vela na mão, senti umj arrepio...
- Ôh, Marielza, será que já é a vela do nosso enterro? Perguntei apavorada.
- Cruzes! Calma! Essa vela tem fim espiritual...
- Que fim espiritual...o nosso?
- Não, fica quieta!
- Tudo bem...tudo bem...
- Oi seu Zé! Falou minha amiga, já super íntima.
- Marielza!! Por aqui, minha filha! Cumprimentou o pai-de-santo com familiariedade.
Saquei de imediato que minha amiga era freqüentadora assídua do local. Desconfiei...Ela, de todas, era a mais desesperada...super suspeito...
Munida de coragem cumprimentei-o também, e aí o desgraçado falou, logo de cara:
- Ih, vai ser caro....
Odiei aquele infeliz, afinal, que diabos era aquilo?
- Venham comigo.
Subimos e no andar de cima, tinha todas aquelas coisas que colocaria qualquer crente pra correr dizendo que era a porta do inferno, mas, como não sou particularmente religiosa, fiquei por lá.
Seu Zé, de repente, começou a enrolar a língua e falar coisas desconexas, começei a não gostar...
- Hooo, Hooo, Iaaaque, êpa, êpa...meu Rei!
- Que merda é essa... disse baixinho puxando a blusa da Marielza que, à propósito, já rodava descabelada e gritando também. A cena era horrorosa.
- Hooo, Hoooo.Iaaaaque, êpa, êpa...
- Vem cá minha filha....disse alguma entidade “encostada”no seu Zé.
- Vô nada! Vou e me mandar!
- Vem cá, vem cá, disse aquele cara me agarrando....e eu tentando me soltar....Vem cá! Vem cá!
- Escuta seu Zé, quero ir embora!
- Não é o Zé aqui....
- Credo!
Quando já me virava para ir embora o mancumbeiro falou:
- Vejo um homem no seu caminho....
Devo acrescentar, (não sem muita vergonha) que voltei rapidinho.
- Que homem?
- É, minha filha, tem um homem pra você, mas, ele tá amarrado....se você cooperar com o santo....aí sim, pode ser que ele venha para o teu caminho....
- Quanto? Perguntei cética.
- Mil e quinhentas pratas....
- Ih, fala sério! Que cara é esse? Será que ele vale isso tudo? Ele não tá amarrado? Tô achando esse preço um absurdo! Afinal, e se o cara não for lá essas coisas? Como é que fica?
- Tá bom, tá bom... Mil e duzentos....mas o serviço fica pela metade!
- Como assim?
- Não vou garantir durabilidade....aí, você tá por sua conta...
Pensei bem e me decidi.
- Ok, tá fechado! Quando começamos?
- Agora!
Então a entidade baixou de vez e de repente, a surpresa:
- Pega aí!
- O que?
- O pinto!
- O que? Que pinto?
- Esse!
- Aiiiiii! Aiiiii! Joga o pinto! Joga o pinto fora!!!!
Nunca senti tanto nervoso, nem quando me atraquei com uma cobra lá em Manaus....
O pinto berrava.
- Ôh seu Zé, que isso?
- Passa, minha filha passa o pinto no seu corpo!
- Ih, seu zé....qual é? Esse pinto tá molhado....Não vou passar não!
- Se você não passar, nunca mais um pinto vai se aproximar de você, passa o pinto!
Enojada, mas francamente temerosa, passei o tal do pinto pelo corpo ( nunca tive a menor intimidade com praga de pai-de-santo e aquela podia pegar.... achei melhor obedecer...)
- Seu zé, o pinto tá berrando, coitado! Vamos deixar o pinto prá lá! Não dá pra fazer outro serviço? Sem animais?
O pai-de-santo me olhou enfezado, mas, pensando na grana, disse:
- Olha....tudo bem...sem pinto...mas é mais caro do outro jeito...você vai ter que ir numa cachoeira....
- Prefiro!
Então aquele crápula me vendeu uns objetos femininos (mais alguns reais) e partimos em direção a cachoeira.
Lá chegando, o “bode velho” voltou a dançar e a gritar....realmente, aqueles gritos já estavam me enchendo a paciência, mas....afinal....os fins justificam os meios....e a me dar ordens!
Uns três gritos depois, vestida com uma saia de cigana velha, pintada como uma palhaça e trêmula de frio, me vi indo parar em frente a queda-d,agua, quando o que eu mais temia aconteceu: Fui descoberta!
Uma turma de um colégio qualquer, estava fazendo uma excursão pela floresta da tijuca e nos pegaram bem na hora do despacho.
- IIIh, olha lá! Macumbeira! Macumbeira! Aos gritos pra quem quizesse ouvir.
Desesperada e tentando não ser vista, joguei-me na tal cachoeira gelada, mas era tarde demais......
Que humilhação....
-Macumbeira, Macumbeira!
Com ódio no coração, parti furiosa pra cima do macumbeiro...
É... como já havia dito anteriormente, todo castigo pra corno é pouco....
No fim da tarde, com alguns dejetos na cabeça, lançados pelos alunos, retornei a minha casa toda elameada e derrotada.
Havia um recado na Secretária eletrônica.... um encontro que eu tinha marcado...e que me dava alguma esperança....
O cara estava me dispensando....tinha ido para a Bósnia....
Algo me diz, que tinha a ver com o pai-de-santo....que eu havia mandado para o hospital...


23:58
Emília Bendelak
